segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um "Monstro" Grandioso!


Ontem, passei uma grande e maravilhosa tarde com uma grandiosa obra-prima do realizador chileno (ou será português?, pelo menos conhece bastante os portugueses e a sua História...) Raúl Ruiz, não só grande de duração mas, também, de qualidade!

O cinema português ficou em grande com esta magnífica obra!

Mistérios de Lisboa é baseado na obra homónima de Camilo Castelo Branco e é um filme histórico de época que percorre o séc. XIX, século das Invasões Francesas em Portugal, do Absolutismo e do consequente Liberalismo (que se propagou pela Europa) …

Brilhantemente filmado, bem construído, a nível histórico e cinematográfico, Raúl Ruiz mostra-se como um verdadeiro mestre ao trazer-nos esta magnífica obra…


É difícil falar do filme com uma ação central, pois ele percorre várias histórias durante quase um século inteiro… Mas há uma personagem central que se liga, e está presente, em todas as histórias: o Padre Dinis, que se mostra como o conselheiro de praticamente todas as personagens. A outra personagem principal do filme é Pedro da Silva, um menino, supostamente, órfão que é recolhido pelo Padre e é ele quem lhe vai contar tudo sobre a sua identidade…


A fotografia de André Szankowski (nomeado para o Prémio Sophia para Linhas de Wellington, no ano passado) é simplesmente perfeita, guarda-roupa de época perfeito, planos e cenas encantadores (onde se destacam as cenas de baile), uso de luzes de mestre (só comparável com o, também, magnífico trabalho de Manoel de Oliveira) onde se destacam, não só, luzes escuras como também incríveis trabalhos de sombras (onde destaco a reflexão da luz do sol),…


Há, também, uma “pré-ligação” a Linhas de Wellington, em relação às cenas das Invasões Francesas.
Mistérios de Lisboa é, de facto, um “monstro” do cinema português, completamente sem falhas cinematográficas de realização e de interpretação (que é, também, de louvar as magníficas interpretações dos nossos atores, nomeadamente, Adriano Luz (o Padre), Maria João Bastos (a mãe de Pedro), Afonso Pimentel e o jovem João Luís Arrais (o Pedro da Silva, jovem e adulto), entre outros…) e pode-se ver como o E Tudo O Vento Levou português… E Tudo O Vento Levou mestria a Guerra Civil Americana e Mistérios de Lisboa a época de esplendor português (depois dos Descobrimentos) com a revelação da nobreza e da aristocracia… É, de facto, um trabalho de mestre!
Veredito:

terça-feira, 1 de julho de 2014

A emoção da escuridão


Vi, faz hoje precisamente uma semana, um grandioso filme do grande mestre dinamarquês Lars Von Trier: "Dancer In The Dark".

"Dancer In The Dark" conta-nos a história de uma emigrante checa, Selma (numa brilhante e magnética interpretação de Björk), uma mulher simples, mãe solteira, muita humana com bom coração, mas com uma terrível doença hereditária que lhe cegará. Com o pressentimento de que o mesmo lhe acontecerá ao filho, Selma junta algum dinheiro para conseguir pagar uma operação que lhe deverá salvar o filho. Acusada falsamente de ter roubado o dinheiro ao seu vizinho termina presa e, “encurralada”, acabará por cair num trágico final…


Enquadrado na trilogia “Golden Heart – Coração Dourado (à letra)” pretende ser um drama mas, ao mesmo tempo, ter um tom musical e, não sendo, de facto, um musical enquadra perfeitamente as canções com as cenas do filme. O gosto da personagem Selma pelos musicais de Hollywood, nomeadamente a paixão por “Música no coração”, é majestosamente trabalhado por Von Trier com planos de câmara que dançam juntamente com as personagens.
Não vi, ainda, os dois filmes anteriores da trilogia (“Ondas de paixão” e “Os Idiotas”) portanto é-me impossível comparar a terceira obra com as outras duas… Mas, vejo que, de facto, esta é uma obra magnífica que nos prende até ao último segundo…

O filme recebeu, merecedoramente, a Palma de Ouro e o Prémio de Interpretação Feminina para Björk no Festival de Cannes, em 2000.


O tom forte e provocante de Lars Von Trier mostra-se, mais uma vez, brilhantemente neste filme, embora seja, provavelmente, dos filmes mais leves do cineasta mas é completamente inconfundível de não ser uma obra sua.

Não dou a classificação máxima ao filme devido, mesmo, ao seu final que, com a luta de Selma e a possível reviravolta judicial, deveria ser mais “feliz”.

“Dancer In The Dark” consegue estar “às escuras” para a personagem que, aliás, é como a personagem dança: às escuras mas, “às claras” na emoção!  

Veredito: